Da jararaca ao jaborandi: medicamentos inspirados na natureza que mudaram a medicina
Atualizado: 28 de set.
Quando pensamos no desenvolvimento de medicamentos, é comum imaginarmos laboratórios equipados com tecnologia de ponta. Mas muitos dos fármacos que fazem parte da medicina moderna nasceram num cenário diferente: na natureza.
Plantas, fungos, bactérias, animais marinhos e até serpentes produzem moléculas capazes de interagir com outros organismos. Ao longo das últimas décadas, pesquisadores aprenderam a identificar essas substâncias, compreender como elas atuam e utilizá-las como ponto de partida no desenvolvimento de medicamentos que hoje ajudam milhões de pessoas em todo o mundo.
A biodiversidade brasileira, uma das mais ricas do planeta, também é protagonista dessa história. Diversas pesquisas desenvolvidas no país investigam novos compostos naturais com potencial para aplicações em saúde, agricultura e biotecnologia. Algumas dessas moléculas já deram origem a medicamentos e outras podem representar a próxima geração de tratamentos. Veja só:
Pilocarpina: da biodiversidade brasileira para a medicina
O jaborandi (Pilocarpus microphyllus), planta nativa do Norte e Nordeste do Brasil, é a principal fonte natural de pilocarpina. Essa substância é utilizada no tratamento do glaucoma, doença que pode danificar o nervo óptico e levar à perda da visão, e também para estimular a produção de saliva em pacientes com boca seca, como aqueles submetidos à radioterapia. A história da pilocarpina também mostra a importância do uso sustentável da biodiversidade brasileira. O manejo adequado do jaborandi contribuiu para conciliar a conservação da espécie com o aproveitamento de uma matéria-prima de grande relevância paraa produção farmacêutica.
Captopril: inspirado no veneno de uma jararaca
Pouca gente sabe, mas um dos medicamentos mais utilizados para tratar a hipertensão arterial tem origem em estudos da década de 60 sobre o veneno da jararaca da espécie Bothrops jararaca, nativa do Brasil.
Pesquisadores identificaram no veneno moléculas capazes de interferir nos mecanismos de regulação da pressão arterial. Esse conhecimento inspirou o desenvolvimento do captopril, considerado um marco na farmacologia cardiovascular. Depois dele, foram desenvolvidos medicamentos da mesma classe como o enalapril, que tem ação mais longa no organismo. O medicamento não contém o veneno da serpente, mas foi desenvolvido a partir do entendimento de como aquelas moléculas atuavam no organismo humano.

Curare: do conhecimento tradicional aos centros cirúrgicos
Muito antes da medicina moderna, povos indígenas da Amazônia utilizavam o curare, uma preparação obtida a partir de diferentes plantas da floresta, para envenenar flechas de caça. Ao estudar seus componentes, cientistas descobriram substâncias capazes de bloquear a comunicação entre nervos e músculos.
Esse conhecimento levou ao desenvolvimento de relaxantes musculares utilizados em anestesias, fundamentais para a realização de cirurgias mais seguras. O curare é um grande exemplo de como os saberes tradicionais e a biodiversidade podem inspirar importantes avanços na medicina.
Acheflan: um fitoterápico desenvolvido a partir da biodiversidade brasileira
O Acheflan é um fitoterápico, ou seja, um medicamento produzido a partir de plantas medicinais. Ele é um dos exemplos mais conhecidos de um medicamento desenvolvido a partir de uma planta nativa brasileira. Produzido com o óleo essencial da erva-baleeira (Varronia curassavica), ele é indicado para o tratamento de dores e inflamações musculares e articulares. Seu desenvolvimento foi resultado de anos de pesquisas realizadas por universidades brasileiras em parceria com a indústria farmacêutica.

Um novo medicamento pode surgir a partir das pesquisas do INCT-Nature?
O INCT-Nature reúne pesquisadores de diferentes áreas para investigar o potencial biotecnológico da biodiversidade brasileira de forma ética, sustentável e alinhada à conservação dos ecossistemas. Os pesquisadores estudam microrganismos marinhos, fungos, bactérias e plantas em busca de moléculas capazes de inspirar novos medicamentos para tratamento de doenças como câncer, infecções causadas por bactérias resistentes, doenças inflamatórias e enfermidades negligenciadas.
Ao investir na pesquisa da biodiversidade brasileira, não estamos apenas ampliando o conhecimento científico. Estamos ampliando as oportunidades para desenvolver novos medicamentos, gerar inovação, valorizar nossos recursos naturais e construir soluções para os desafios de saúde do futuro.
Revisão:
Ana Beatriz Tuma
Jeamylle Nilin
Amanda Danuello
Fontes consultadas: Revisão sistemática: aplicabilidade do curare ao longo da história
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Fotos: Canva



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