Ciência básica e ciência translacional: qual a diferença e por que precisamos das duas?
Quando uma pesquisa resulta em um novo medicamento, tecnologia ou tratamento, é fácil enxergar sua importância. O que nem sempre aparece é tudo o que precisou acontecer antes dessa aplicação se tornar possível.
Muitas descobertas começam com perguntas que, à primeira vista, não têm uma utilidade imediata: como determinada molécula funciona? Por que um organismo produz certa substância? Como diferentes espécies interagem? O que acontece dentro de uma célula quando ela entra em contato com determinado composto?
É nesse caminho entre compreender fenômenos e transformar conhecimento em possíveis aplicações que entram a ciência básica e a ciência translacional.

O que é ciência básica?
A ciência básica, também chamada de pesquisa básica, busca ampliar nosso conhecimento sobre como a natureza e seus fenômenos funcionam. Seu objetivo principal não é necessariamente desenvolver um produto ou solucionar imediatamente um problema específico.
Imagine, por exemplo, que pesquisadores encontrem uma substância produzida por um organismo marinho. Antes de pensar em transformá-la em um medicamento, é preciso responder a uma série de perguntas: qual é a estrutura dessa molécula? Por que aquele organismo a produz? Como ela interage com outras moléculas? Que efeitos provoca em diferentes células?
Talvez essas respostas não resultem imediatamente em um produto (e às vezes nem têm essa pretensão). Ainda assim, elas ampliam o conhecimento disponível e podem abrir caminhos que sequer haviam sido imaginados no início da pesquisa.
É justamente uma das características mais importantes da ciência básica: nem sempre sabemos onde uma descoberta vai nos levar.
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E o que é ciência translacional?
Se a pesquisa básica ajuda a construir os fundamentos do conhecimento, a ciência translacional busca criar pontes para que descobertas científicas possam avançar em direção a aplicações práticas.
Na área da saúde, é comum associá-la à expressão “da bancada à beira do leito”, em referência ao percurso entre as descobertas realizadas em laboratório e sua eventual aplicação no cuidado com pacientes. Mas esse caminho não acontece de uma hora para outra.
Uma molécula que apresenta uma atividade interessante em laboratório, por exemplo, ainda precisa passar por diferentes etapas de investigação. Os pesquisadores precisam compreender seu mecanismo de ação, avaliar sua toxicidade, testar sua eficácia em modelos cada vez mais complexos e verificar se os resultados iniciais continuam promissores. E nem toda descoberta chegará ao final desse percurso. Muitas substâncias são descartadas em algum ponto dos testes por reprovarem em quesitos como segurança e eficácia em humanos.
Por isso, a ciência translacional não é simplesmente “transformar uma pesquisa em produto”. Ela envolve integrar diferentes áreas do conhecimento para investigar se uma descoberta pode avançar com segurança e consistência em direção a uma aplicação.

Então uma pesquisa é mais importante que a outra?
Não. E talvez esse seja um dos pontos mais importantes dessa discussão.
Sem pesquisa básica, faltaria conhecimento para alimentar novas possibilidades de inovação. Sem esforços translacionais, muitas descobertas com potencial de aplicação poderiam permanecer restritas às etapas iniciais da pesquisa.
Na prática, essa relação também está longe de ser uma linha reta.
Uma pesquisa translacional pode encontrar um problema que exige voltar a uma pergunta básica. Por outro lado, uma descoberta feita sem qualquer aplicação prevista pode, anos ou décadas depois, tornar-se fundamental para uma tecnologia. E um resultado que não funcionou como esperado pode gerar novas perguntas científicas.
Em vez de dois caminhos separados, podemos pensar em um processo de troca constante entre descoberta, investigação e aplicação.
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Da biodiversidade ao laboratório
Essa integração ganha uma dimensão especial quando falamos da biodiversidade brasileira.
Plantas, fungos, microrganismos e seres marinhos produzem uma enorme diversidade de moléculas, muitas delas ainda desconhecidas pela ciência. Estudar como essas substâncias são produzidas, quais funções desempenham na natureza e como interagem com outras espécies faz parte da construção de conhecimento sobre nossa própria biodiversidade.
Algumas dessas descobertas também podem apresentar características interessantes para pesquisas nas áreas da saúde, agricultura, cosméticos e biotecnologia.
Para investigar essas possibilidades, diferentes conhecimentos precisam se encontrar: química, ecologia, farmacologia, toxicologia, biologia molecular, biotecnologia e muitas outras áreas.
É justamente por isso que grandes redes científicas como o INCT-Nature são importantes. Ao reunir pesquisadores com diferentes especialidades, é possível estudar uma mesma questão por perspectivas complementares e criar conexões entre ciência básica, pesquisa translacional e inovação.

Ciência também precisa de tempo
Em uma sociedade acostumada a resultados rápidos, pode ser difícil compreender por que uma pesquisa leva anos, ou mesmo décadas, para produzir determinadas aplicações.
Mas a ciência não é uma sequência previsível de descobertas.
Resultados precisam ser testados, questionados e reproduzidos. Hipóteses podem estar erradas. Experimentos podem abrir perguntas completamente diferentes daquelas que deram origem ao projeto.
Valorizar apenas pesquisas que prometem uma aplicação imediata significa ignorar uma parte fundamental do processo científico. A ciência básica nos permite fazer perguntas que ampliam as fronteiras do conhecimento. A ciência translacional ajuda a investigar até onde algumas dessas descobertas podem chegar.
E é justamente no diálogo entre diferentes formas de produzir conhecimento que muitas das grandes transformações científicas começam.
Revisão: Ana Beatriz Tuma
Amanda Danuello
Fontes:
Imagens: Canva.



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