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Eleições 2026: o que está em jogo para a ciência e a universidade pública?

há 5 dias
6 min de leitura

Um medicamento que começa a ser investigado em um laboratório. Uma estudante que descobre a pesquisa científica pela primeira vez. Um bioma brasileiro que passa a ser melhor compreendido. Um curso de Medicina que chega ao interior do país.


Por trás de histórias muito diferentes existe algo em comum: universidades públicas, pesquisadores, estudantes e políticas que permitem que ciência e educação continuem acontecendo.


Em uma série de vídeos postados no Instagram, LinkedIn, TikTok e YouTube pesquisadores e bolsistas do INCT-Nature contam como a universidade pública atravessou suas próprias trajetórias e por que investir em ensino superior, pesquisa e formação científica não pode ser tratado apenas como uma despesa. 


Da universidade para a saúde e a soberania científica


Essa relação aparece na trajetória de Letícia Lotufo, vice-coordenadora do INCT-Nature e professora de Farmacologia da Universidade de São Paulo (USP).


Graduada em Biologia, com doutorado, pós-doutorado e uma trajetória docente iniciada em 2002, Letícia viu a universidade pública abrir portas para sua própria formação e, posteriormente, passou a formar novas gerações de pesquisadores.


Hoje, suas pesquisas estão relacionadas ao desenvolvimento de novos medicamentos, inclusive na busca por substâncias com potencial contra o câncer.


Quando um país mantém laboratórios, forma cientistas e desenvolve capacidade própria de investigar novos tratamentos, também reduz sua dependência exclusiva do conhecimento e das tecnologias produzidas no exterior. É nesse sentido que, para Letícia, universidade pública e soberania caminham juntas.


Quando entrar na universidade muda uma trajetória


Para Otília Pessoa, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), essa história também é pessoal. Foi o ingresso em uma universidade pública que transformou sua própria vida.


Depois, já como professora e pesquisadora, ela acompanhou a universidade por outra perspectiva: viu projetos crescerem, estudantes serem formados e os efeitos que a redução de recursos pode produzir sobre o cotidiano acadêmico.


A experiência recente das universidades federais ajuda a dimensionar essa preocupação. Em 2022, dirigentes das instituições alertaram à Câmara dos Deputados que o orçamento disponível era inferior ao período anterior à pandemia. Naquele ano, houve sucessivos bloqueios e contingenciamentos de recursos destinados às universidades.

Para Otília, defender a educação pública passa por uma ideia fundamental: ela não deve ser entendida como privilégio, mas como direito, oportunidade e possibilidade de transformação.


Onde a ciência brasileira acontece?


A bolsista ADC 2A Camylla Fernanda parte de uma pergunta provocativa: investir na produção científica das universidades públicas é apenas gasto?


Os dados ajudam a responder.


O relatório da Clarivate sobre a produção científica brasileira entre 2013 e 2018 aponta as universidades públicas como a principal origem das publicações científicas do país. As 15 instituições com maior produção científica (todas públicas) foram responsáveis por mais de 60% dos trabalhos brasileiros indexados no período. 


É nesses espaços que pesquisadores investigam desde a biodiversidade brasileira até novas moléculas, medicamentos, tecnologias, processos ambientais e problemas de saúde pública.


O retorno desse investimento nem sempre aparece imediatamente. Ciência exige tempo: uma descoberta realizada hoje pode levar anos até resultar em uma aplicação. E muitas pesquisas não resultarão em produtos, mas ainda assim produzem conhecimento, formam profissionais e abrem caminho para perguntas que antes sequer poderiam ser feitas.


Coleta de amostras por Bianca Del Bianco Sahm
Coleta de amostras pela pós-doutoranda Bianca Del Bianco Sahm, para análise da biodiversidade, isolamento de bactérias e potencial biotecnológico em Fernando de Noronha. Parceria com PELD-ILOC (Pesquisa Ecológica de Longa Duração das Ilhas Oceânicas Brasileiras) e rede Prospecmar. Foto: Luís Rocha (@coralreeffish).

Quando a universidade chega ao interior


Em Picos, no Piauí, a professora Larissa Guimarães, da Universidade Federal do Piauí (UFPI), observa de perto outro efeito das políticas de educação superior: a interiorização.


A expansão da UFPI pelo REUNI levou sete novos cursos ao campus de Picos a partir de 2006. Anos depois, o Programa Mais Médicos esteve relacionado à criação do curso de Medicina no município, implantado em 2016.


Isso significa que políticas públicas nacionais podem produzir transformações muito concretas em uma cidade: novos cursos, professores, estudantes, pesquisa e formação de profissionais que antes estavam concentrados principalmente nas capitais.

Para quem vive e trabalha nesses territórios, a universidade pública deixa de ser um local abstrato para a população e passa a fazer parte da paisagem.


Pesquisar o Pantanal exige estabilidade


Carlos Carollo, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), trabalha com pesquisas relacionadas ao Pantanal. Estudar um bioma ao longo do tempo exige equipamentos, trabalho de campo, laboratórios e pessoas.


Nesse cenário, estudantes de pós-graduação ocupam um lugar central. São mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos que realizam muitos dos experimentos, coletam dados e ajudam a construir parte significativa da ciência brasileira.


Em 2023, as bolsas de mestrado e doutorado da CAPES e do CNPq receberam reajuste de 40%, enquanto a iniciação científica teve aumento de 75%. O reajuste ocorreu depois de uma década sem atualização dos valores das principais bolsas de pós-graduação. 


Para Carlos, pensar no futuro da pesquisa também significa oferecer segurança financeira e perspectivas de carreira para quem escolhe permanecer na ciência.


Uma bolsa também é uma política de permanência


A professora Jeamylle Nilin, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), conhece essa realidade pelos dois lados.


Em sua formação, recebeu bolsas de diferentes instituições de fomento. Hoje, como professora, acompanha estudantes para os quais uma bolsa pode significar a própria possibilidade de permanecer na universidade.


Ela costuma lembrar aos alunos que aquele recurso não surgiu do nada: é investimento público, financiado pela sociedade, na formação de pesquisadores e profissionais.


Essa mesma lógica aparece em um projeto coordenado por Jeamylle que recebeu mais de R$ 1 milhão para aproximar meninas do ensino médio de pesquisas relacionadas ao saneamento básico. Mais do que realizar experimentos, iniciativas desse tipo permitem que jovens tenham contato com possibilidades profissionais que talvez nunca tivessem imaginado.


Jeamylle Nilin com estudantes do programa "Futuras Cientistas"
Profa Dra Jeamylle com estudantes do programa "Futuras Cientistas" com o projeto "Guardiãs das Águas do Triângulo Mineiro". Uma das integrantes do projeto, Ana Beatriz Oliveira, é hoje graduanda em Ciências Biológicas e bolsista de apoio à difusão do conhecimento científico. Foto: Acervo Leaxtox/UFU.

O que existe por trás de uma oportunidade


Nos laboratórios que fazem parte do INCT-Nature, a defesa da universidade pública aparece também nas experiências cotidianas dos estudantes.


A equipe do Laboratório de Biologia Farmacêutica da Universidade Estadual de Maringá (UEM), com a professora Raquel Isolani Luvizotto, destaca o encontro entre alunos de diferentes contextos, pesquisadores experientes, programas de incentivo e políticas de permanência. É nesse ambiente que podem surgir desde novas estratégias diagnósticas até tecnologias e candidatos a medicamentos.


Já no Laboratório de Isolamento e Síntese de Compostos Orgânicos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), coordenado pela Profª. Drª. Renata Mendonça e pelo Prof. Dr. Fábricio Menezes, a história ganha a perspectiva de uma estudante que encontrou na universidade oportunidades que não imaginava ter, especialmente por meio da pesquisa.


Mas oportunidades precisam de condições para existir.


Sem recursos, experimentos podem ser interrompidos, equipamentos deixam de ser adquiridos ou mantidos, bolsas desaparecem e projetos deixam de incorporar novos estudantes. Às vezes, aquilo que aparece em uma planilha como redução orçamentária significa, no outro extremo, uma pesquisa que não começa ou uma trajetória científica que termina antes do tempo.


Investimento público e continuidade


Os últimos anos oferecem um exemplo claro de como decisões orçamentárias interferem nesse cenário.


Em 2019, segundo a Andifes, o orçamento das universidades federais sofreu um bloqueio de aproximadamente 30%. Em 2022, as instituições voltaram a enfrentar bloqueios e chegaram ao ano com recursos abaixo dos valores de 2019, inclusive antes de considerar a inflação.


A partir de 2023, houve recomposição: naquele ano, universidades e institutos federais receberam R$ 2,44 bilhões adicionais, levando os recursos novamente ao patamar de 2019, segundo o balanço do MEC. Também houve o reajuste das bolsas de pesquisa. Em 2024 e 2025 ocorreram novas complementações orçamentárias para universidades e institutos federais.


Isso não significa que todos os problemas de financiamento da ciência e da educação superior estejam resolvidos. Significa que orçamento importa e que diferentes escolhas de política pública produzem consequências diferentes para universidades, pesquisadores e estudantes.


A ciência também é uma escolha de futuro


O INCT-Nature existe porque muitas peças funcionam juntas: universidades, instituições de pesquisa, agências de fomento, bolsas, laboratórios, professores, técnicos e estudantes.


Por isso, defender ciência não significa apenas celebrar uma descoberta depois que ela acontece. Significa criar condições, entre outras, para que alguém possa fazer a pergunta, entrar no laboratório, permanecer na universidade, repetir um experimento, formar novos pesquisadores e continuar investigando quando a resposta ainda não chegou.


Em períodos eleitorais, educação, ciência, tecnologia e biodiversidade também fazem parte das escolhas colocadas diante da sociedade. Na hora de escolher em quem votar, é preciso olhar para políticas, orçamentos e resultados e perguntar: que condições queremos oferecer para que pesquisadores possam estudar, pesquisar e produzir conhecimento no Brasil?


Revisão:

Ana Beatriz Tuma

Jeamylle Nilin


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