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Entrevista com Diego Veras Wilke: Como a biodiversidade marinha pode inspirar novos medicamentos contra o câncer?

30 de set.
6 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Há bilhões de anos, os oceanos vêm moldando formas de vida que desenvolveram estratégias sofisticadas para sobreviver, competir e interagir entre si. Muitas dessas adaptações dependem da produção de moléculas únicas, capazes de proteger organismos contra predadores, microrganismos e mudanças ambientais. Hoje, essas mesmas substâncias despertam o interesse da ciência por seu potencial para inspirar novos medicamentos.


Neste novo capítulo da nossa série de entrevistas com os pesquisadores do INCT-Nature, conversamos com o Diego Wilke, professor da Universidade Federal do Ceará, que busca compreender como compostos produzidos por organismos marinhos podem contribuir para o desenvolvimento de novas terapias contra o câncer.


Além de cientista e integrante do comitê gestor da nossa rede, Diego é musicista. Ele conta: “Além de cientista, sou musicista também. Amo essas duas linguagens e tenho buscado integrá-las. A criatividade é essencial para ambas, mas a arte conversa com as emoções, tornando essa comunicação muito poderosa”.


Antes de ler o texto, fica o convite para você ouvir ele cantando “Sorriso da Morena”, uma das músicas da sua banda Qualquer Coisa Roots, no EP Entre Nós:




Diego Wilke lançou a trilha sonora "Somos mar", com o mesmo nome do projeto de extensão que coordena, que faz reflexões para conscientização ambiental através de paralelos do nosso organismo com o mar. A letra da trilha explora diversos aspectos que relacionam o mar com os organismos vivos numa perspectiva que inclui evolução, fisiologia e ecologia, mesclando metáforas e termos técnicos. Os arranjos fazem uma mescla de ritmos (polirritmia) fazendo alusão aos sistemas do organismo humano que têm funções diferentes, mas complementares.



Vamos para a conversa? Leia a entrevista completa 😁 


Professor Diego Wilke tocando teclado em um show
Professor Diego Veras Wilke tocando em um show. Fonte: Acervos pessoal.

Como a biodiversidade marinha pode contribuir para o desenvolvimento de novos medicamentos contra o câncer?


Essa é uma pergunta bastante interessante: os oceanos, são o berço da vida. Há bilhões de anos, quando a vida surge, o que a gente observa é que esse processo vem gerando ininterruptamente espécies novas e que, ao longo desse tempo, dessa trajetória muito longa, ocorrem muitas interações. Os organismos precisam se adaptar ao ambiente, para que eles consigam suportar certas condições ambientais e interações com outras espécies. Existe uma competição muito grande entre eles, as relações de predação, de ocupação do espaço um do outro.


Essas relações ecológicas fazem com que os organismos desenvolvam uma variedade muito grande de estratégias. E a que nos interessa, ela particularmente foi adotada com muito sucesso por diversos invertebrados. Principalmente aqueles invertebrados que têm o corpo mole, que ficam fixos a um substrato [base ou superfície que organismos vivem, crescem  ou se apoiam], que não tem nenhum tipo de proteção mecânica, como concha ou carapaça, protegendo eles. Tipicamente, eles são candidatos muito relevantes à produção de substâncias que nos interessam, porque a defesa química, muitas vezes através da produção de substâncias tóxicas, é frequente. Essas substâncias podem ser produzidas pelos próprios invertebrados marinhos ou por bactérias que vivem associadas a eles.


O que é morte celular imunogênica e por que ela representa uma estratégia inovadora no combate ao câncer?


A morte celular imunogênica é um tipo de morte celular que é regulada. E é interessante porque ativa o sistema imunológico para reconhecer células tumorais. No câncer, a gente vai perceber, muitas vezes, que ele tem a capacidade de modificar o funcionamento de células do próprio organismo em favor do sucesso dele, inclusive burlando o sistema imunológico. É um processo que a gente chama de imunossubversão tumoral. E isso faz com que muitas terapias anticâncer tenham resultados limitados.


Quando a gente usa uma substância que induz a morte imunogênica da célula tumoral, ela possibilita que o sistema imunológico daquele paciente volte a reconhecer essas células como células que precisam ser combatidas, a gente obtém um efeito duplo. Primeiro, o efeito direto da citotoxicidade [capacidade de uma substância causar danos à uma célula], que é o mecanismo inicial que a gente procura nos nossos projetos. Mas, além disso, a gente tem um outro efeito que é altamente benéfico, que é utilizar o nosso sistema próprio de defesa, para ajudar a combater a própria doença.


E o resultado desse efeito é semelhante ao de uma vacina. Essas células tumorais que sofrem morte celular imunogênica liberam sinais imunogênicos [sinais de alerta ao sistema imunológico liberados por células sob estresse ou mortas], que o sistema imunológico vai reconhecer, e produzir uma resposta específica contra o tumor. Uma minoria dos quimioterápicos hoje disponíveis para o tratamento oncológico possuem esse mecanismo. E, coincidentemente, todos esses fármacos que possuem esse mecanismo são muito relevantes. Eles produzem resultados mais duradouros e têm um índice de sucesso, em geral, maior dentre os pares deles, considerando o arsenal todo que a gente tem para utilizar como substâncias anti-câncer.


Esses fármacos têm resultados muito bons, mas até pouco tempo atrás, não se sabia que o mecanismo que os tornava mais eficientes era esse. Era um aliado por muito tempo invisível. Portanto, a inovação não vem no sentido de ser um mecanismo novo, mas na busca direcionada por esse efeito, que é relativamente novo para a ciência. A nossa expectativa é que, se ainda na fase inicial, a gente conseguir identificar não só a citotoxicidade, mas essas características imunogênicas, nós aumentaremos a expectativa de que, nos modelos mais complexos para o desenvolvimento de um medicamento anti-câncer, ela vá produzir resultados mais promissores.


Sua atuação no INCT-Nature combina pesquisa e divulgação científica. Na sua visão, por que é importante que a sociedade conheça o potencial biotecnológico da biodiversidade marinha?


Cada vez mais o nosso grupo tem abraçado essa causa e a gente tem feito muita coisa bem legal recentemente. A gente tem se preocupado com a divulgação dos trabalhos que a universidade produz. Porque eu acho que até uma dívida que a gente tem. Nossos recursos são de financiamento, principalmente público na universidade e a população precisa entender para onde está indo esse dinheiro do imposto. Eles têm o direito de entender como que a gente está buscando soluções, como que isso eventualmente pode se transformar em retorno para a sociedade na forma de um medicamento. Isso também move a economia e isso aumenta a força enquanto nação e a soberania também. Quando o país tem uma ciência forte, tende a se fortalecer através da geração de conhecimento, porque a inovação vem junto com esse trabalho na fronteira do conhecimento. A população também precisa ter consciência disso.


E aí, quando a gente fala de potencial biotecnológico, da biodiversidade, a gente está querendo explorar isso, mas de uma maneira sustentável. Usamos bactérias como fonte de produção das moléculas estudadas, assim precisamos de amostras bem pequenas retiradas do ambiente. Uma preocupação imediata com a conservação para nossos projetos é porque, quem trabalha com biodiversidade, precisa desse repositório como fonte. E a biodiversidade conservada gera muito mais riqueza do que se ela for explorada de maneira predatória, como o modelo vigente vem fazendo atualmente.


Além de todo esse papo, de economia, necessário para sentar em mesas de discussão, também fica a semente de algo mais relevante, o conceito de que nós somos a própria natureza. Essa perda de senso de pertencimento da gente com ela, afasta a percepção de que estamos fazendo mal a nós mesmos quando ignoramos a saúde do planeta. Essas atividades de divulgação que fazemos também visam despertar essa percepção. Então, o nosso trabalho de divulgação científica, visa exatamente tentar usar o nosso nicho de trabalho para promover uma conscientização também desse aspecto.


O comitê gestor do INCT-Nature tem um papel estratégico. Como as decisões tomadas nesse grupo ajudam a impulsionar as pesquisas e ampliar seu impacto na sociedade?


A organização do comitê do INCT-Nature tem um papel realmente muito interessante. Na figura dos diferentes comitês é possível abraçar a causa da divulgação científica, que é uma carência importante que precisa ser suprida. A interação com a sociedade acaba vindo aí de diferentes formas nesse âmbito. Mas além disso, a gente tem comitês para organizar vários aspectos que favorecem o desenvolvimento dos projetos científicos na geração de conhecimento e, eventualmente, a produção de inovação mesmo dentro do contexto do INCT. 


O que você gostaria que mais pessoas soubessem sobre a pesquisa que você desenvolve?


Gostaria que mais pessoas enxergassem os organismos marinhos com curiosidade e admiração. Ainda conhecemos apenas uma pequena parte dessa biodiversidade, e protegê-la é fundamental para compreendermos melhor a vida e as inúmeras relações que existem nos oceanos.


A entrevista com Diego Veras Wilke mostra que a biodiversidade marinha representa muito mais do que um conjunto de espécies ainda pouco conhecidas. Ela reúne milhões de anos de evolução, interações ecológicas e soluções naturais que podem inspirar novas estratégias para o tratamento de doenças, sempre aliando inovação científica à conservação dos ecossistemas.


Não perca as próximas postagens da nossa série de entrevistas para conhecer os pesquisadores e projetos que revelam como a biodiversidade brasileira inspira descobertas científicas, inovação e soluções para desafios da saúde e do desenvolvimento sustentável. 🌳🌊  


Revisão:

Ana Beatriz Tuma

Diego Veras Wilke


Saiba mais: Currículo Lattes do Professor Drº Diego Veras Wilke


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