Entrevista com Jeamylle Nilin: Contaminantes invisíveis e biodiversidade
Atualizado: há 6 dias
Nem toda ameaça à biodiversidade é fácil de enxergar. Antes que um rio apresente sinais visíveis de degradação ou que os animais comecem a desaparecer, pequenas alterações químicas e biológicas já podem comprometer o equilíbrio dos ecossistemas. É justamente nesse estágio que a Ecotoxicologia se torna uma importante aliada da conservação ambiental, ajudando a identificar riscos antes que seus impactos se tornem irreversíveis.
Nesta entrevista, conversamos com a Jeamylle Nilin, professora da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisadora do INCT-Nature, que atua na investigação dos impactos da poluição sobre a biodiversidade e também integra o comitê gestor da rede, coordenando ações de divulgação científica e extensão. Apaixonada por viajar e pegar a estrada, às vezes acompanhada do seu cachorrinho Salim, ela acredita que conhecer diferentes lugares também amplia o olhar sobre os desafios ambientais e reforça a importância de aproximar a ciência das pessoas.
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O que é Ecotoxicologia e por que ela é importante para a conservação da biodiversidade?
A Ecotoxicologia busca compreender como as alterações ambientais de origem natural ou antrópica [provocada pelo ser humano], como a poluição, podem afetar a qualidade de vida dos seres vivos. Isso é importante, pois a poluição pode afetar as espécies de diferentes maneiras, e para a conservação da biodiversidade é preciso garantir um ambiente saudável para todos, incluindo bactérias, animais, plantas e humanos.
Muitas vezes só percebemos os problemas ambientais quando eles já são visíveis ou viram tragédias. Como a ciência ajuda a identificar ameaças que ainda passam despercebidas pela sociedade?
Prevenir é sempre melhor do que remediar, mas, infelizmente, só percebemos o efeito da poluição quando animais maiores morrem, como os peixes. Muitas vezes já é tarde demais. Mas antes disso acontecer, há diversos outros organismos que podem nos indicar que o ambiente não está saudável. Eles servem como verdadeiros vigias dos ambientes, sejam aquáticos ou terrestres. Para isso precisamos fazer um monitoramento contínuo, fazendo experimentos com amostras de água ou solo, e registrando as respostas que essas espécies nos dão.
Seu trabalho envolve tanto a pesquisa sobre os impactos ambientais de diferentes substâncias quanto ações de educação científica. O que é mais desafiador: fazer pesquisa ou fazer com que esse conhecimento chegue e faça sentido para as pessoas fora da universidade? Por que?
Fazer a pesquisa, com certeza, pois temos que lidar com diversas dificuldades típicas da pesquisa, tanto em laboratório quanto em atividades de campo. Além disso, nossa pesquisa depende de financiamento contínuo, pois, como mencionei, precisamos monitorar continuamente, já que a poluição está cada vez pior. Já para compartilhar qualquer tipo de conhecimento, a gente só precisa conversar! Claro que existem diversas estratégias para falar sobre assuntos complexos, mas a poluição faz parte do dia a dia de qualquer pessoa, por isso é um assunto de que todos têm conhecimento para compartilhar, sejam cientistas ou não.
Durante as atividades de educação, o que as pessoas costumam não saber sobre poluição química que mais te surpreende?
Temos conversado muito sobre os contaminantes emergentes, que são substâncias que usamos todos os dias desde a hora em que acordamos até a hora de dormir. Estão nos produtos de higiene, de limpeza, nos remédios e até nos alimentos. Tudo isso vai parar no esgoto, e depois nos rios e no mar. É sempre uma surpresa quando eu pergunto quantas substâncias a pessoa usou no dia, pois não tem o costume de ler rótulos e não tem ideia dessa resposta.
Você também integra o comitê gestor do INCT-Nature. Como funciona esse trabalho e qual é a importância dele para conectar as diferentes áreas e projetos da rede?
Nós somos uma equipe que tem como objetivo desenvolver atividades de divulgação científica nas escolas e de extensão em suas comunidades. Nesse primeiro ano, estamos estruturando todas as ferramentas de divulgação do INCT para facilitar o acesso de pessoas fora do meio acadêmico. No ano que vem, pretendemos desenvolver também outras atividades de extensão, incluindo a formação de estudantes de pós-graduação para que dialoguem com a comunidade a partir dos projetos de pesquisa desenvolvidos nas diversas áreas do conhecimento. Mas o grande foco está na criação de um curso de formação de Guardiões da Biodiversidade, que juntamente com os Guardiões do Mar e Guardiões das Águas, tem como objetivo estimular jovens a atuarem como agentes multiplicadores do conhecimento e de transformação social por meio da ciência.
Essa conversa mostra que proteger a biodiversidade começa muito antes de uma tragédia ambiental se tornar notícia. Monitorar a qualidade dos ecossistemas, compreender os efeitos da poluição e compartilhar esse conhecimento com a sociedade são etapas fundamentais para prevenir impactos e construir soluções mais sustentáveis.
Esse compromisso também se reflete nas ações de educação científica e de extensão desenvolvidas pelo INCT-Nature, que buscam formar pesquisadores, estudantes e cidadãos capazes de atuar como agentes de transformação em suas comunidades. Continue acompanhando nossa série de entrevistas para conhecer os pesquisadores e projetos que ajudam a transformar a biodiversidade brasileira em conhecimento, inovação e benefícios para a sociedade.
Revisão:
Ana Beatriz Tuma
Jeamylle Nilin
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