Entrevista com Letícia Veras Costa Lotufo: Como a biodiversidade brasileira pode inspirar os medicamentos do futuro?
A biodiversidade brasileira ainda guarda um enorme potencial científico pouco explorado. Em plantas, fungos, microrganismos e organismos marinhos podem estar as substâncias que darão origem aos medicamentos, cosméticos e tecnologias do futuro. Mas transformar essa riqueza natural em inovação exige muito mais do que encontrar uma substância promissora: envolve anos de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e uma rede de pesquisadores trabalhando de forma integrada.
Nesta entrevista, conversamos com a Letícia Veras Costa Lotufo, professora da Universidade de São Paulo (USP), vice-coordenadora do INCT-Nature e pesquisadora dedicada à descoberta de novos fármacos a partir da biodiversidade brasileira. Talvez não seja coincidência que alguém apaixonada por desvendar substâncias complexas também goste de montar quebra-cabeças. Fora da pesquisa, Letícia equilibra a rotina entre romances literários e a boa boemia de um barzinho com amigos. Ao longo da conversa, ela explica por que os produtos naturais despertam tanto interesse da ciência, como ferramentas modernas ajudam a acelerar essas descobertas e quais são os desafios para transformar uma molécula encontrada na natureza em um medicamento capaz de beneficiar pacientes.
Se você quer entender como biodiversidade, inovação e pesquisa científica caminham juntas na busca por novos tratamentos e soluções sustentáveis, acompanhe esta entrevista e descubra por que o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário.

Quais são os benefícios de desenvolver medicamentos inspirados na biodiversidade brasileira em relação a produtos sintéticos?
Eu acho que a grande questão de desenvolver medicamentos inspirados na biodiversidade, quando a gente compara os produtos naturais com os sintéticos, é que a gente tem estruturas mais complexas nos produtos naturais, que de certa forma, já são produzidas por organismos vivos e que ao longo de anos de evolução pode ter favorecido a seleção de substâncias reativas nos organismos biológicos, o que pode gerar substâncias bioativas [com funções fisiológicas no corpo]. Mesmo que no organismo produtor ela não esteja atuando com aquela função que a gente usa quando a gente pensa no medicamento. Eu acho que a gente precisa discutir muito a ideia de agregar valor à nossa biodiversidade sem que ela precise ser destruída. Quando a gente tenta fazer uma produção mais sustentável de algum produto da biodiversidade, é como se a gente atribuísse valor a nossa biodiversidade conservada como detentora de produtos de alto valor agregado.
O que torna a biodiversidade brasileira uma fonte tão promissora para a descoberta de novos medicamentos?
No caso específico da biodiversidade brasileira, eu acho que tem uma coisa interessante, que é o fato da nossa biodiversidade ainda ter sido pouco estudada com relação ao desenvolvimento de fármacos, de cosméticos. E eu acho que isso indica que a gente pode ter uma fonte inédita e que possa agregar valor a ela.
No INCT-Nature você também trabalha com metabolômica e metagenômica. O que são essas ferramentas e por que elas são importantes para a pesquisa em produtos naturais?
A gente usa técnicas especializadas que fazem uma análise de uma mistura complexa. Quando eu falo que eu estudei o metaboloma, é como se eu estudasse o conjunto de metabólitos [pequenas moléculas] que um determinado organismo produz, e não uma substância apenas. Pensa em uma digital. É como se a gente tivesse uma digital química daquele organismo. E a metagenômica seria o conjunto de micro-organismos associados a uma matriz complexa, sendo que essa matriz pode ser desde sedimento a outro animal. A gente tem conversado muito na literatura e nas redes sociais sobre a microbiota [conjunto de microrganismos, como bactérias e fungos, que vivem no nosso corpo] do nosso intestino.
Do mesmo jeito que a gente tem uma estimativa que no nosso organismo a gente tenha 1,3 bactéria para cada célula de mamífero, nos animais marinhos, como os corais, as esponjas-do-mar, as ascídias [animais que vivem no fundo do mar de forma solitária ou agrupados como uma colônia], essa relação é ainda maior, ou seja, a gente teria aí um maior número de micro-organismo para cada célula daquele invertebrado.
Nesse sentido, há um nome que foi estabelecido que chama sistema holobionte, que seria o animal marinho, tipo coral, com todas as bactérias que estão ali dentro. E esse holobionte, ele tem uma química característica, que não é uma química só da esponja ou só do coral ou das bactérias. É uma química conjunta desses organismos. Essas ferramentas de metabolômica e metagenômica podem nos ajudar a ver muitas coisas que a gente não conseguia ver com métodos mais tradicionais de prospecção. No caso da metabolômica, a gente consegue fazer essa digital química dos extratos dos organismos complexos e ver o que tem lá dentro, se tem alto grau de ineditismo ou se a gente consegue anotar grande parte das substâncias que estão ali presentes. Ou no caso da metagenômica, a gente consegue isolar bactérias cultiváveis para identificar clusters de biossíntese, que são conjuntos de genes voltados para biossíntese de uma substância. Então essas são ferramentas que, de certa forma, trouxeram muita inovação para o estudo de produtos naturais.

Quando uma substância apresenta resultados promissores anticâncer em laboratório, quais são os próximos passos até que ela possa beneficiar pacientes?
O caminho entre o laboratório e um paciente é enorme. A gente tem aí muitos testes. Então quando a gente faz o teste no laboratório, que a gente identifica uma substância que seja potencialmente promissora, temos um caminho muito grande de determinar como aquela substância age, de desenvolver formulações farmacêuticas que possam ser testadas em organismos vivos. A gente tem que fazer uma prova de conceito em animais pra ver se o efeito que a gente observou in vitro aparece nos animais. A gente tem que fazer a toxicologia pré-clínica, que é feita em animais, até chegar nos estudos com pacientes. A gente tem um intervalo que talvez chegue a 20 anos com muito investimento. E pra substância sair dos estudos animais para humanos, a gente fala que ela tem que cruzar o vale da morte, onde talvez 5 em cada 10 mil substâncias consigam fazer essa passagem.
Quais são os principais desafios de coordenar uma rede com tantos pesquisadores de áreas tão diversas, como é o caso do INCT-Nature?
A nossa rede de pesquisa é uma rede de pesquisa muito interessante. Tem pesquisadores de várias áreas do conhecimento relacionadas ao estudo de produtos naturais e coordenar a rede é extremamente prazeroso e um desafio também. Nós temos um grande número de pesquisadores e nós temos uma gestão de recursos e de oportunidades que pode transformar muito a vida dos pesquisadores, principalmente, pode dar um estímulo no início da carreira de jovens pesquisadores. O que é uma coisa muito importante pro nosso INCT. Nós temos toda uma linha voltada para estimular a carreira dos jovens pesquisadores.
A biodiversidade brasileira ainda guarda um enorme potencial para a descoberta de novos medicamentos, produtos naturais e tecnologias inovadoras. Por meio da pesquisa científica, o INCT-Nature busca transformar esse patrimônio em conhecimento, inovação e benefícios para a sociedade. Continue acompanhando nosso blog para conhecer as pesquisas e os pesquisadores que fazem parte dessa rede. 😉
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