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Entrevista com Otília Pessoa: o potencial científico escondido na biodiversidade da Caatinga

14 de out.
4 min de leitura

A biodiversidade brasileira guarda uma enorme diversidade de espécies, interações e moléculas que ainda conhecemos apenas em parte. A Caatinga, por exemplo, localizada no norte de Minas Gerais e na região nordeste do Brasil, é marcada por longos períodos de estiagem e por organismos altamente adaptados a condições extremas, investigar essa riqueza também ajuda a entender como a natureza responde ao ambiente e que conhecimentos podem surgir a partir dela.


É nesse universo que atua Otília Deusdênia Loiola Pessoa, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisadora e membro do Comitê Gestor do INCT-Nature. Ela estuda produtos naturais presentes em plantas da Caatinga, organismos marinhos e microrganismos associados à biodiversidade marinha. Ao longo de sua trajetória, ela tem investigado substâncias com diferentes propriedades biológicas, e refletido também sobre os desafios para que descobertas científicas avancem para novas aplicações.


Fora do laboratório, a conexão com a natureza continua presente: Otília gosta muito de nadar no mar. Nesta entrevista, ela fala sobre o que mais a encanta na transformação da Caatinga com a chegada das chuvas, a importância de conhecer a biodiversidade também do ponto de vista químico e o papel da divulgação científica para aproximar a pesquisa da sociedade.


Professora Otília em viagem na praia
Foto da professora em Portugal. Fonte: acervo pessoal da professora.

A Caatinga é um dos biomas exclusivamente brasileiros, mas ainda é pouco conhecida por muitas pessoas, principalmente fora do Nordeste brasileiro. O que mais te fascina na biodiversidade desse ambiente e por que ela merece mais atenção da ciência?


De fato, felizmente, tem-se o ensino, inclusive o de nível superior, que contribui para preencher a lacuna de conhecimento sobre esse bioma tão peculiar. O bioma Caatinga, cujo nome em tupi significa mata branca (caa=mata, tinga=branca), é caracterizado, na maior parte do ano, por plantas secas ou de caules acinzentados e sem folhagem, uma consequência dos longos períodos de estiagem, muitas vezes de secura extrema. 

O que mais me fascina nesse bioma é assistir à explosão das plantas, nascendo ou brotando com as primeiras chuvas, substituindo o tom acinzentado de plantas secas ou sofridas por diversos tons de verde. Isto traz vida à região e começam a aparecer aves e animais adaptados à dureza da aridez. Então, isto muito me encanta e me faz pensar quão fértil é este bioma e sua biodiversidade. 

Como pesquisadora e trabalhando com produtos naturais, penso no quanto a ciência, apoiada pelos governos, poderia investir e melhor aproveitar o potencial e endemismo [espécies que ocorrem exclusivamente em determinada região] desse ecossistema altamente especializado em resistir e sobreviver à escassez de água.   


Sua pesquisa busca moléculas presentes em plantas e organismos marinhos. Como é o caminho entre encontrar uma substância promissora e descobrir se ela realmente pode se tornar um medicamento ou outro produto útil?


Como pesquisadora e estudando plantas da Caatinga, organismos marinhos e microrganismos da biodiversidade marinha, tenho tido o privilégio de isolar um vasto número de substâncias com potencial terapêutico, especialmente com propriedades anticâncer, anti-inflamatórias e antimicrobianas. Tenho certeza de que, se tivéssemos o apoio institucional, incentivo financeiro, inclusive com a participação da empresa privada, e políticas voltadas para produtos, teríamos alguns bons resultados.  Assim, respondendo à pergunta, tenho pleno conhecimento do quão difícil e longo é o caminho entre o isolamento de uma substância viável e vários outros aspectos, inclusive os que envolvem outras áreas.


professora Otília com seus alunos
Foto com seus alunos. Fonte: acervo pessoal da professora.

Grande parte da sociedade conhece a biodiversidade pela sua beleza. Como você explicaria a importância de estudá-la também do ponto de vista químico?


Este é um ponto extremamente importante, pois é fato que a população tem conhecimento das propriedades terapêuticas de muitas plantas. Entretanto, sabe-se que o metabolismo de uma planta é altamente diversificado. Na verdade, o metabolismo vegetal é um dos mais complexos e variados, haja vista que as plantas dependem exclusivamente da química para se defenderem e sobreviverem. Portanto, da mesma forma que a planta produz compostos benéficos à saúde, também pode produzir compostos tóxicos, indesejáveis à saúde. Portanto, conhecer os princípios ativos, descobrir novos compostos e avaliar suas propriedades biológicas é crucial para o uso seguro de uma planta.  


Você integra o Comitê Gestor responsável pela extensão, divulgação científica e iniciativas educacionais do INCT-Nature. Como esse trabalho pode aproximar a pesquisa científica das pessoas fora da universidade?


A divulgação da pesquisa científica é obrigatória, haja vista que tanto pesquisar como o fazer ciência requerem investimentos públicos. Portanto, nada mais justo do que a divulgação de seus resultados de forma ampla, pensando não somente no meio acadêmico e científico, mas também em ser esclarecedora para o povo.  


O que você espera que as pessoas enxerguem de forma diferente sobre a biodiversidade brasileira depois de conhecerem pesquisas como a sua?


Espero que as pessoas compreendam que a biodiversidade é fonte de riqueza que se traduz no alimento, no remédio, na qualidade de vida, no meio de vida, etc.  Espero que inspire, particularmente aos jovens, o respeito e o cuidado por tão precioso patrimônio que a natureza nos deu.   



Ao falar sobre a Caatinga, a diversidade química dos organismos e os caminhos da pesquisa com produtos naturais, Otília mostra como ainda há muito a conhecer sobre a biodiversidade brasileira. Para ela, ampliar esse conhecimento também passa por valorizar a ciência, garantir condições para que as pesquisas avancem e compartilhar seus resultados para além da universidade.


Esse olhar se conecta diretamente à sua atuação no INCT-Nature, onde também integra o trabalho de extensão e divulgação científica. Ao aproximar pesquisa e sociedade, a expectativa é que mais pessoas reconheçam a biodiversidade não apenas como algo a ser admirado, mas como um patrimônio que precisa ser conhecido, respeitado e cuidado.


Não deixe de acompanhar as próximas entrevistas do nosso blog!


Revisão: Ana Beatriz Tuma Otília Pessoa



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