Entrevista com Amanda Danuello Pivatto: por que estudar as abelhas é essencial para o futuro da biodiversidade?
Atualizado: 28 de set.
Quando pensamos em abelhas, normalmente lembramos do mel ou da polinização. Mas existe um universo invisível que poucos conhecem: uma sofisticada comunicação química que guia comportamentos, ajuda no reconhecimento entre indivíduos e influencia a reprodução desses importantes polinizadores.
Nesta entrevista, conversamos com a Amanda Danuello Pivatto, professora da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisadora e membro do Comitê Gestor do INCT-Nature, que investiga a ecologia química das abelhas e busca compreender como essas moléculas podem contribuir para a conservação da biodiversidade e para uma agricultura mais sustentável. Integrante do comitê gestor da rede, Amanda além de conciliar a pesquisa científica com a docência e a divulgação científica, equilibra os desafios da carreira e da vida pessoal, que inclui, entre outras atividades, a prática de pole dance desde 2017.
Boa leitura 😁

Sua pesquisa no INCT-Nature investiga aspectos pouco conhecidos pelo público geral sobre a biologia das abelhas. Explique um pouquinho o que são as marcas olfativas e qual o potencial de estudá-las.
As marcas olfativas são uma espécie de “linguagem química” das abelhas. Elas são formadas por moléculas que ficam na superfície do corpo desses insetos ou são deixadas no ambiente carregando informações importantes, como reconhecimento entre indivíduos e sinais relacionados ao comportamento reprodutivo. O nosso trabalho é justamente tentar decifrar essa linguagem invisível. Ao entender como as abelhas se comunicam, também aprendemos mais sobre sua biologia e sobre formas de proteger e atrair esses polinizadores, que são essenciais para a manutenção dos ecossistemas e para a produção de alimentos.
O que faz com que a Mamangava (Xylocopa frontalis) tenha tanto potencial de inovação na pesquisa dentro do INCT-Nature?
A mamangava, também conhecida como abelha carpinteira, é uma das principais polinizadoras do maracujá, uma cultura de grande importância econômica para o Brasil. O mais interessante é que existe um verdadeiro “encaixe perfeito” entre a abelha e a flor. Por causa do seu tamanho e do seu comportamento, ela consegue tocar as estruturas reprodutivas da planta e realizar uma polinização muito eficiente. É um daqueles exemplos que nos fazem pensar como a natureza é incrível e como as espécies evoluíram de forma integrada ao longo do tempo.
Ao estudar a comunicação química e o comportamento dessa abelha, buscamos compreender melhor essas interações entre animais e plantas, um dos grandes objetivos do INCT-Nature. Esse conhecimento pode contribuir tanto para a conservação da biodiversidade quanto para o desenvolvimento de estratégias mais sustentáveis para a agricultura.
Qual foi a descoberta mais curiosa/surpreendente da sua pesquisa até agora?
A maior surpresa foi perceber que moléculas aparentemente simples podem desempenhar funções biológicas extremamente sofisticadas. Na Química Medicinal e na Química de Produtos Naturais, eu estava acostumada a trabalhar com estruturas químicas mais complexas, em busca de novas substâncias com potencial farmacológico. No início, confesso que muitas das moléculas encontradas nas abelhas pareciam simples demais e, para o meu olhar de química, até pouco interessantes. Mas a natureza mostrou que eu estava enganada: elas formam uma verdadeira linguagem química, capaz de transmitir informações essenciais para a sobrevivência e o comportamento desses animais.
Os resultados têm sido tão promissores que estamos ampliando os estudos para outras espécies de abelhas importantes para diferentes cultivos agrícolas, principalmente no Cerrado. E existe também uma descoberta bem pessoal: antes desse projeto eu tinha certa aversão a insetos. Hoje sou completamente apaixonada por abelhas e me pego observando o comportamento delas com curiosidade. A pesquisa também transforma os pesquisadores.

Nos últimos anos, o declínio das populações de abelhas tem chamado a atenção de cientistas e ambientalistas em todo o mundo. As abelhas solitárias enfrentam os mesmos desafios das espécies sociais?
Sim. As abelhas solitárias também sofrem com a perda de habitat, o uso excessivo de pesticidas e as mudanças climáticas. A diferença é que elas costumam receber menos atenção do que espécies mais conhecidas, como a abelha-do-mel. No entanto, elas desempenham um papel fundamental na polinização de muitas plantas nativas e agrícolas. Conhecer melhor sua biologia é um passo importante para criar estratégias eficientes de conservação.
Como integrante do comitê gestor, quais são os principais desafios para alinhar pesquisa, inovação, educação e extensão dentro de um projeto tão amplo?
Talvez o maior desafio seja conectar pessoas, instituições e áreas do conhecimento muito diferentes em torno de um objetivo comum. Um projeto como o INCT-Nature reúne pesquisadores de diversas regiões do país, com formações e experiências complementares, e isso exige um diálogo constante para integrar pesquisa, inovação, formação de recursos humanos e ações de divulgação científica. Ao mesmo tempo, é uma oportunidade única de construir uma ciência mais colaborativa, diversa e próxima da sociedade.
No plano pessoal, o desafio é conciliar todas as facetas da profissão como desenvolver projetos de pesquisa, orientar alunos, dar aulas, atuar em atividades de gestão e em cargos dentro da universidade, participar de iniciativas de divulgação científica e, claro, também reservar tempo para a vida pessoal e a família. Não é uma tarefa simples, mas é justamente essa diversidade que faz com que eu ame o que faço. Produzir conhecimento é muito gratificante, mas poder compartilhar esse conhecimento, formar novas gerações de pesquisadores e aproximar a ciência da sociedade torna esse trabalho ainda mais especial.
A ciência é construída por pessoas movidas pela curiosidade, pela colaboração e pela vontade de transformar conhecimento em benefícios para a sociedade. No INCT-Nature, pesquisas como a da Amanda ajudam a revelar a complexidade das relações entre os organismos e demonstram como proteger a biodiversidade é também investir no futuro da agricultura, dos ecossistemas e da qualidade de vida.
Não perca as próximas entrevistas! Continue acompanhando nossa série para conhecer os pesquisadores e projetos que mostram como a biodiversidade brasileira inspira descobertas científicas e soluções para os desafios do presente e do futuro.
Revisão:
Ana Beatriz Tuma
Amanda Danuello
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